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SENAI Ceará conecta Pecém a padrões internacionais de segurança em hidrogênio verde

30/10/2026 - 17h10

A transição energética que começou a ganhar forma no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP) trouxe, portanto, um desafio que vai além da construção de novas plantas, equipamentos e infraestrutura: preparar os profissionais que atuarão nessa nova indústria para operar com segurança.

Foi nessa dimensão da nova economia que o SENAI Ceará, em parceria com a TÜV Rheinland e o Programa Internacional de Incentivo ao Hidrogênio (H2Uppp), implementado pela Agência alemã de Cooperação (GIZ) e comissionado pelo Ministério Federal da Economia e Energia da Alemanha (BMWE), desenvolveram uma capacitação voltada ao fortalecimento dos padrões de segurança, do conhecimento técnico e da capacidade operacional relacionados ao hidrogênio verde e seus derivados no ambiente industrial e portuário.

A iniciativa reuniu conhecimento internacional, formação profissional e demandas reais do Pecém. Mais do que transmitir conteúdos técnicos, o projeto contribuiu para construir uma das bases necessárias ao desenvolvimento da cadeia de novas energias no estado: profissionais capazes de compreender riscos, aplicar padrões de segurança e atuar com tecnologias que ainda estão em processo de consolidação no mercado brasileiro.

Para o Diretor Regional do SENAI Ceará e Superintendente do SESI Ceará, Paulo André Holanda, a formação deixou um legado que ultrapassou a realização das próprias turmas.

“Quando falamos em transformar o Pecém em um polo competitivo da nova economia de baixo carbono, não basta ter infraestrutura, energia renovável e projetos industriais. Precisamos também de profissionais preparados para operar essas novas tecnologias com segurança e eficiência. Esse trabalho segue o direcionamento do Presidente da FIEC, Ricardo Cavalcante, de preparar a indústria cearense para as oportunidades da transição energética, conectando qualificação, inovação e desenvolvimento. Esse projeto antecipou uma demanda da indústria e deixou um legado importante para o Ceará: conhecimento, capacidade técnica local e uma força de trabalho mais preparada para receber investimentos e aproveitar as oportunidades geradas por essa nova economia”, destacou Paulo André.

A segurança no manuseio do hidrogênio e de seus derivados também se mostrou uma questão diretamente relacionada à competitividade. Falhas operacionais podem colocar trabalhadores em risco, comprometer investimentos, provocar atrasos regulatórios e afetar a confiança de parceiros e investidores. Nesse contexto, a qualificação profissional passou a fazer parte da própria infraestrutura necessária para que o Pecém avance na nova economia de baixo carbono.

"A cooperação internacional foi fundamental para consolidar a excelência deste projeto. O H2Uppp, por meio da GIZ, se propõe a desenvolver parcerias público-privadas ao longo da cadeia de valor do hidrogênio. A capacitação técnica é um elo indispensável nessa cadeia e corrobora com o propósito do programa em se ter o benefício público, capaz ser replicado e fortalecer o mercado de hidrogênio globalmente” afirmou Carlos Divino, Assessor de Energia e Portos da GIZ Brasil.

Do Pecém à Europa e de volta ao Ceará, o projeto começou antes das salas de aula. Uma das primeiras etapas foi mapear empresas, operadores portuários e outros atores ligados ao ecossistema de hidrogênio verde do CIPP para identificar quais competências seriam necessárias à futura operação dessa cadeia.

A análise apontou uma lacuna, a formação profissional brasileira ainda precisa ampliar a oferta de qualificações específicas para o manuseio seguro de moléculas como hidrogênio, amônia verde, e-metanol e transportadores líquidos orgânicos de hidrogênio (LOHC). A partir desse diagnóstico, foi construída uma matriz de capacitação alinhada às necessidades identificadas no ambiente portuário.

O conhecimento também percorreu o caminho inverso ao que se espera das futuras exportações de energia do Pecém. Os instrutores do SENAI Ceará participaram de uma missão técnica à Alemanha e aos Países Baixos - com destaque a uma visita técnica ao terminal de amônia em Rotterdam, principal parceiro comercial do Porto do Pecém - e por uma formação online com multiplicadores globais da TÜV Rheinland que complementaram o conhecimento pré-existente do SENAI Ceará. Com o conhecimento adquirido, os instrutores desenvolveram os módulos e materiais didáticos utilizados nas capacitações.

A TÜV Rheinland contribuiu com sua experiência internacional em segurança industrial e transição energética, incluindo conteúdos sobre riscos relacionados ao hidrogênio, à amônia e ao metanol, gestão de segurança de processos, integridade de sistemas e equipamentos pressurizados. O SENAI Ceará assumiu a coordenação da implementação local e a infraestrutura laboratorial existente para realização das aulas práticas, conectando esse conhecimento às necessidades da mão de obra e do setor produtivo cearense.

Essa combinação foi uma das características centrais da iniciativa: em vez de simplesmente importar um modelo estrangeiro, o projeto partiu de uma avaliação das necessidades do Pecém e adaptou referências internacionais à realidade brasileira. “Trazer conhecimento internacional para o Ceará é importante, mas o verdadeiro legado acontece quando conseguimos internalizar esse conhecimento e transformá-lo em capacidade local. A partir da formação dos nossos instrutores, o SENAI Ceará passa a ter condições de multiplicar esse conteúdo, atualizar as capacitações e preparar continuamente profissionais para uma cadeia que pode ser estratégica para o Pecém e para o Ceará”, declarou Cláudio Furtado, Instrutor Educacional do SENAI Ceará e especialista em Hidrogênio.

Da turma-piloto à formação de profissionais em três estados

A capacitação foi estruturada em turmas de até 20 participantes, com 40 horas de formação. A turma-piloto foi realizada no SENAI Barra do Ceará e serviu para validar a metodologia, os conteúdos e os materiais antes da ampliação da iniciativa.

A partir dessa experiência, a formação alcançou diferentes pontos do ecossistema industrial e portuário. Foram realizadas turmas com profissionais ligados ao Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP) e à AECIPP, além da Companhia Docas do Ceará, do Porto do Piauí, da Prefeitura de São Gonçalo do Amarante, do Corpo de Bombeiros e do Porto de Suape, em Pernambuco.

Para Isabela Maciel, Assessora para Transição Energética do SENAI Ceará, um dos principais diferenciais esteve justamente na construção de uma formação conectada à realidade do território.

“O grande diferencial desse projeto foi construir a formação a partir das necessidades reais do ambiente industrial e portuário do Pecém. Buscamos referências internacionais, capacitamos multiplicadores e adaptamos esse conhecimento à realidade brasileira. Com isso, o SENAI Ceará ampliou sua capacidade de formar profissionais para uma cadeia que ainda está em consolidação e criou uma metodologia que pode continuar evoluindo e ser replicada em outros portos. É conhecimento internacional que se transforma em competência local”, afirma.

A diversidade dos participantes refletiu a própria complexidade dessa nova cadeia. Operações envolvendo hidrogênio e seus derivados exigem não apenas operadores de equipamentos, mas também gestores portuários, técnicos, equipes de emergência e agentes públicos envolvidos em atividades como planejamento, fiscalização e resposta a ocorrências.

Durante as atividades, os alunos foram colocados diante de situações semelhantes às que poderão encontrar em operações reais. A formação abordou propriedades físico-químicas do hidrogênio, sistemas pressurizados, integridade de equipamentos, inspeção de tubulações e cilindros, procedimentos de abastecimento e movimentação de combustíveis, além da interpretação de padrões técnicos nacionais e internacionais.

Mais do que preparar profissionais para funções específicas, a iniciativa buscou fortalecer uma cultura de segurança para uma cadeia industrial que ainda está em consolidação no Brasil.

O projeto mostrou que a disponibilidade de profissionais capacitados também influencia a capacidade de um território de receber novas tecnologias, operar empreendimentos com segurança e atrair investimentos.

Os impactos da iniciativa ocorreram em diferentes dimensões. No campo técnico, a formação ampliou conhecimentos relacionados à segurança no manuseio de hidrogênio, amônia e outros sistemas industriais. No âmbito institucional, fortaleceu a cooperação entre SENAI Ceará, GIZ, TÜV Rheinland e atores do ecossistema industrial e portuário. Na dimensão socioeconômica, contribuiu para preparar profissionais para as oportunidades associadas à transição energética. E, no campo da inovação, desenvolveu uma metodologia com potencial de aplicação em outros territórios.

Essa capacidade de replicação deixou de ser apenas uma possibilidade. O conhecimento construído a partir das necessidades do Pecém também chegou a profissionais de outros ambientes portuários, com capacitações realizadas no Piauí e em Pernambuco.

O Pecém, assim, não foi apenas o território de referência para uma nova tecnologia. As necessidades identificadas no Complexo ajudaram a gerar conhecimento e uma metodologia capazes de circular por outros ecossistemas industriais e portuários do País.

Outro legado esteve nos materiais desenvolvidos durante o projeto. A partir do levantamento das necessidades do setor, foram estruturados currículo, conteúdos e material de treinamento abordando temas como saúde e segurança ocupacional, legislação e propriedades do hidrogênio.

O projeto também previu a disponibilização gratuita desse conteúdo em versões em português e inglês, ampliando a possibilidade de utilização do conhecimento em novas formações.

A formação de multiplicadores locais foi outro ponto importante. Ao capacitar instrutores do próprio SENAI Ceará, a iniciativa reduziu a dependência permanente de especialistas externos e criou condições para que o conhecimento seja atualizado e compartilhado à medida que o mercado de hidrogênio verde avance.

Ao final da iniciativa, 156 profissionais foram qualificados, resultado que superou a perspectiva inicial de alcançar cerca de 150 participantes. Mais do que a quantidade de certificados emitidos, porém, o projeto deixou uma capacidade instalada para novas formações e para a disseminação de uma cultura de segurança ligada à cadeia do hidrogênio verde.

Na corrida mundial pela descarbonização, infraestrutura, energia renovável e localização estratégica continuam sendo ativos decisivos. Mas a capacidade de operar novas tecnologias de forma eficiente e segura também passou a integrar essa equação. É nesse ponto que formação profissional e desenvolvimento econômico se encontram.

O SENAI Ceará e seus parceiros prepararam profissionais antes mesmo da consolidação de uma nova cadeia industrial. E mostraram que o valor gerado pela transição energética no Ceará não estará apenas nas moléculas verdes que poderão sair pelo Porto do Pecém. Estará também no conhecimento desenvolvido no estado, na capacidade dos profissionais cearenses e nas soluções que, a partir do Pecém, poderão chegar a outros portos do Brasil e do mundo.

O Ministério Federal da Economia e Energia da Alemanha apoia o engajamento de empresas na alavancagem do hidrogênio no Sul Global por meio do Programa Internacional de Incentivo ao Hidrogênio (H2Uppp).

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